Poluição estrangeira
Data: 28/06/2006
Fonte: O Eco
Carolina Elia
A Petrobras tem novos
problemas ambientais no Equador. A empresa brasileira está sendo
acusada por duas comunidades da região de Sacha, na província amazônica
de Orellana, de contaminar dois rios: Salvador e Jivino Rojo. Ambos são
utilizados pelas comunidades 3 de Novembro e 25 de Dezembro para banho,
lazer e lavagem de roupa. Algumas famílias também bebem a água que a
Petrobras jura que não está infectada, mas todo mundo que mergulha nela
sai se coçando.
Adultos e crianças têm
apresentado micose, placas vermelhas na pele e ardência na garganta
depois de tomarem banho nos rios, principalmente no Jivino Rojo, mais
próximo à comunidade 3 de Novembro. A vila tem este nome em memória à
data em que um grupo de sem-terra ocupou a área e posteriormente
recebeu os devidos títulos. Na década de noventa, alguns venderam suas
propriedades para petroleiras interessadas em explorar petróleo na
região. Hoje, a Petrobras é a principal acionária do que ficou
conhecido como Bloco 18.
Segundo os moradores, que
costumam banhar-se quase que diariamente nos rios, a coceira é pior na
época de chuva, quando os resíduos das áreas exploradas são carreados
para os cursos d’ água através de um canal aberto pela Petrobras no
Bloco 18. O coordenador de relações comunitárias da companhia, Doryan
Jara, afirma que não há registros de vazamento e que o resultado de
duas análises feitas este ano nos rios foi negativo. Mas basta cheirar
a lama do canal aberto pela Petrobras para se sentir o odor forte de
hidrocarboneto e perceber a presença de grãos negros de petróleo
misturados à terra molhada.
Análises feitas pela
Secretaria de Meio Ambiente da província de Orellana no rio Jivino Rojo
também registraram uma alta condutividade elétrica, o que revela forte
presença de sais na água. Augusto Córdoba, responsável pelos estudos de
qualidade da água feitos pelo governo de Orellana, afirma que é comum
eles encontrarem traços preocupantes de metais nas amostras, mas
esbarram em dois problemas. Primeiro, apesar de alto, os níveis de
poluição encontrados são aceitáveis pelos padrões de regulamentação
para operações hidrocarboníferas no Equador que, segundo Augusto, estão
defasados em relação aos limites sugeridos pela Organização Mundial de
Saúde. Em segundo lugar, somente um órgão controlado pelo ministério de
Minas e Energia, o Dinapa, está autorizado a fazer analises de amostras
de contaminação. Portanto, as análises da Secretaria de Meio Ambiente
de Orellana não têm valor se não para a Justiça, quando uma comunidade
entra com uma ação contra a empresa. Por enquanto, as comunidades e a
Petrobras estão em fase de negociação. Sexta-feira, dia 30 de junho, a
companhia irá com técnicos da Dinapa examinar a água dos rios.
A comunidade de 3 de
Novembro apresenta o maior número de casos de contaminação. Segundo o
morador Pablo Pacheco, não há mais tantos peixes no rio como havia há
cinco anos. Além disso, sua mulher rotineiramente precisa ir ao médico
porque apresenta manchas quase roxas na pele. Victor Manuel Pina, que
vive há 31 anos no local e participou da ocupação da terra, afirma que
perdeu 35 cabeças de gado em 4 anos – coisa que nunca havia acontecido
antes – e que tem mais duas vacas doentes. Muitos animais também
abortaram seus bezerros e ele culpa a água contaminada por todo o dano.
"Antes, quando não existia a Petrobras, não perdíamos os animais, não
precisávamos vaciná-los, nem lhes dar vitaminas e remédios", diz.
Carlos Yanza, presidente do Comitê de Afetados de Jivino Rojo, afirma
que eles escolheram morar naquela região, conhecida como "jóia da
selva", por causa dos rios e que eles dependem do curso d´água para
tudo. Tanto a comunidade 3 de Novembro quanto a 25 de Dezembro não têm
água encanada.
Apesar de terem iniciado
um diálogo com a Petrobras, que permite desde o começo do ano a
presença de dois observadores comunitários em suas instalações, os
moradores se mostram descrentes com a empresa. Gustavo Verduga,
professor da escola de 25 de Dezembro e líder comunitário, se queixa
que a companhia brasileira não cumpre os convênios firmados nem as
regras mínimas de segurança ambiental. "Não temos nada contra a
Petrobras", diz, lembrando que boa parte dos moradores da comunidade
trabalham no Bloco 18, "só queremos que obedeça as lei e os níveis de
contaminação para evitar enfermidades", conclui.
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