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Um
presente climático para futuras gerações
http://www.ambienteja.info/2008/ver_cliente.asp?id=137927
O Equador é o primeiro país do mundo a anunciar planos para
deixar no fundo da terra as reservas de petróleo que estão sob as suas
florestas. O país deseja que empresas estrangeiras, incluindo
companhias alemãs, o compensem por fazer esse sacrifício
Em cada hectare da floresta Yasuni, no noroeste da Amazônia, há
tantas espécies de árvores quanto em toda a América do Norte. Existem
na região até mesmo espécies raras de animais, como o tapir da montanha
e o macaco-aranha-de-cabeça-marrom. Este paraíso é também o lar de
várias tribos nativas que atualmente vivem totalmente isoladas do mundo
exterior.
A biodiversidade na floresta Yasuni é maior do que em quase todos os
outros locais no mundo. A floresta virgem é protegida pelo seu status
de parque nacional e reserva da biosfera da Unesco, mas até quando?
Várias companhias de petróleo estão pressionando o governo em Quito, a
capital equatoriana, para que este conceda licenças de perfuração na
reserva.
A floresta de Yasuni fica sobre a maior reserva de petróleo
conhecida do Equador, que consiste de vários milhões de barris de
petróleo. O petróleo é o mais importante produto de exportação do país.
E embora o petróleo não tenha tornado o Equador rico, sem os
petrodólares e "petroempregos" o país provavelmente seria ainda mais
pobre do que já é.
Isto torna a proposta que a ministra equatoriana do Meio Ambiente,
Marcela Aguiñaga, fez a Berlim e outras capitais européias ainda mais
sensacional. O Equador é a primeira nação produtora de petróleo a
propor que se deixem as reservas permanentemente no subsolo.
"O fato de não produzir o petróleo permite que a atmosfera fique
livre de uma quantidade adicional de dióxido de carbono", explica
Aguiñaga, que trabalhou como guarda ambiental na Ilhas Galápagos antes
de ingressar na sua carreira governamental. "Além disso, a floresta não
é derrubada". Ainda que fossem usadas tecnologias de perfuração que
protegem a floresta, os madeireiros provavelmente iriam se instalar na
área, no rastro das companhias de petróleo.
Até agora, os apelos do Ocidente aos países em desenvolvimento para
que estes envolvam-se na luta contra o aquecimento global e protejam a
sua biodiversidade não geraram resultados. A tentação de seguir as
rotas convencionais para a riqueza é muito grande. E, agora, um dos
países mais pobres da América do Sul está pedindo às nações
industrializadas que paguem para que a sua riqueza em combustíveis
fósseis possa permanecer debaixo da terra.
"O petróleo que está sob o Parque Nacional Yasuni vale vários
bilhões de dólares", afirma Aguiñaga. No verão de 2008, o presidente
equatoriano Rafael Correa fez uma primeira tentativa de proteger a
floresta e os seus recursos. Ele propôs que os contribuintes ocidentais
e equatorianos arcassem, cada um, com a metade do custo da decisão de
não explorar petróleo na área ambientalmente sensível. Mas a iniciativa
jamais deu resultados.
Agora Correa está sob pressão para ceder às companhias petrolíferas.
Esperando impedir que isso aconteça, Aguiñaga apresentou uma nova - e
final - proposta durante uma viagem à Europa: a de que o Equador seja
compensado principalmente pelas companhias ocidentais, que poderiam a
seguir vender o petróleo de Yasuni na forma virtual de certificados de
dióxido de carbono.
Atualmente as companhias industriais e operadoras de usinas de
geração de energia na União Européia têm que apresentar tais
certificados em troca da emissão de dióxido de carbono na atmosfera. A
oferta e a procura determinam o preço por tonelada. Os equatorianos
estão propondo que o petróleo na região de Yasuni seja incorporado ao
sistema de comércio de dióxido de carbono. As reservas petrolíferas de
Yasuni seriam convertidas em toneladas equivalentes de dióxido de
carbono não emitido na atmosfera como resultado do fato de o Equador
impedir a produção petrolífera.
"A renda seria usada para aumentar a proteção dos cinco milhões de
hectares de reservas naturais no Equador, para promover um
desenvolvimento rural menos agressivo ao meio ambiente e para proteger
as nossas tribos nativas", afirma Aguiñaga. A floresta permaneceria
intocada e o petróleo ficaria sob a terra, mas mesmo assim o país
receberia dinheiro suficiente para o desenvolvimento. A impressão que
se tem é que esta é a solução ideal.
Mas onde quer que Aguiñaga vá ela depara-se com as mesmas questões
difíceis: O que aconteceria se os sauditas começassem a exigir
compensação pelo petróleo que não produzissem? E se um novo governo em
Quito acabasse permitindo a exploração do petróleo?
Aguiñaga argumenta que o modelo só se aplicaria a regiões nas quais
as reservas de petróleo estivessem localizadas sob ecossistemas com
grande biodiversidade. E os doadores teriam o direito de confiscar o
petróleo caso este acabasse sendo extraído.
No entanto, Aguiñaga ainda não conseguiu convencer inteiramente
ninguém, especialmente porque uma decisão quanto ao reconhecimento
oficial de novas formas de redução de dióxido de carbono, e, portanto,
quanto ao valor monetário, não será tomada antes da Conferência do
Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2009, em Copenhague.
Caso não consiga convencer governos e companhias, a ministra
Aguiñaga só vê uma alternativa para a exploração de petróleo na região
de Yasuni: cidadãos ecologicamente conscientes de todo o mundo poderiam
garantir a permanência do combustível fóssil na terra por meio da
compra particular de certificados de dióxido de carbono - como um
presente climático aos seus filhos.
"Nós ofereceremos na Internet a oportunidade de comprar com um
cartão de crédito a oportunidade de manter o petróleo de Yasuni dentro
da terra", diz Aguiñaga. "Este seria um presente de Natal ou de
nascimento ideal".
(Por Christian Schwägerl, Der
Spiegel, 21/11/2008)
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