|
Por que Dilma?
Roberto Malvezzi
(Gogó)
Lula já decidiu que a candidata do PT e
aliados à eleição
presidencial de 2010 será Dilma Roussef.
Antes essa escolha presidencial no PT parecia mais democrática, até
porque Lula
era um candidato natural. Hoje é monárquico. Porém, é de se perguntar:
por que Dilma?
A explicação é que Dilma
tem a
mesma concepção de desenvolvimento, a mesma weltaunchaung
– visão de mundo – que Lula. É um credo. É nesse
sentido que se colocam todas as afirmações a seguir.
Sabemos que Lula padece de uma
compreensão industrial de desenvolvimento.
Muito mais que nordestino, Lula é o operário, “o peão que pensa em
desenvolvimento e inclusão social”, como costuma repetir Gilberto
Carvalho,
secretário pessoal do presidente. Ainda mais, “numa lógica
absolutamente
capitalista”, o que Gilberto não costuma acrescentar. Para confirmar,
João Paulo Capobianco afirmou ao jornal
Estado de S.
Paulo que “Lula não tem visão ambiental estratégica” e que, “Dilma tem menos sensibilidade ambiental que José
Dirceu”.
Portanto, todos os paradoxos que
enfrentamos com o
governo Lula nesses seis anos agora acabam confirmados pela boca de
pessoas
ligadas diretamente ao governo. Um governo que realizou investimentos
periféricos nas populações mais pobres, ganhou
um
apoio popular descomunal, mas favoreceu estruturalmente o agro e hidronegócios –
financiando com dinheiro oficial,
modificando leis em favor dos grileiros, facilitando o desmatamento,
investindo
na agenda da infra-estrutura do regime militar, etc –, causando
impactos
terríveis no ambiente e nas comunidades tradicionais que dele dependem
diretamente, como pescadores artesanais, quilombolas, índios e demais
comunidades tradicionais.
Há um fator ainda mais grave que é o
futuro, o aquecimento
global, onde o Brasil entra como o quarto poluidor do planeta,
resultado da
emissão monumental de CO2 na
atmosfera pela derrubada e queimada de florestas. A derrubada de nossas
florestas participa com 75% das nossas emissões. Nossa queima de
petróleo, em
termos de aquecimento global, é irrelevante diante da derrubada das
florestas. Portanto,
se o Brasil quiser mesmo reduzir sua contribuição no aquecimento, com a
conseqüente savanização da Amazônia,
desertificação
do semi-árido, enchentes no sul e sudeste, terá que propor a si mesmo o
“desmatamento zero”. Essa é a política chave do ambientalismo
brasileiro.
“Dilma é a
mãe do
PAC”, costuma dizer Lula. O PAC tem aspectos positivos, sobretudo em
questões sociais, como o saneamento ambiental, no qual Fernando
Henrique ficou
dez anos sem investir um tostão por acordo com o Banco Mundial. Mas é só, daí para frente o PAC é a cara dos militares
e de Delfim
Neto, numa lógica irremediavelmente predadora. A visão de mundo de Dilma pertence a esse perfil. Não
é a pessoa com a visão de mundo adequada
para os atuais desafios brasileiros e mundiais.
Entretanto, temos que fazer a pergunta
básica: há algum
presidenciável com uma visão mais atualizada de mundo e desenvolvimento
que
ela? No tucanato e nos tais democratas
nunca houve e
nem haverá. O PV sucumbiu aos encantos do poder e desapareceu enquanto proposta sócio ambiental. Aqueles que tentam
conjugar
justiça e equilíbrio ambiental estão absolutamente órfãos na política
brasileira.
|