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Martes, 20 de Marzo de 2007 19:29 |
| EM DEBATE: Produção de
etanol no Brasil segue geopolítica dos EUA, denuncia professora |
(7´07´´
/ 1,62 Mb) - O interesse pelo etanol (álcool combustível) foi um dos
motivos da visita recente do presidente estadunidense George W. Bush ao
Brasil, já que a perspectiva é de que os Estados Unidos reduzam o
consumo de gasolina em 20% até 2017. A substância, extraída da
cana-de-açúcar, é vista como uma das grandes apostas na geração de
energia “limpa” e renovável. Se por um lado a notícia de incentivo à
produção do etanol anima usineiros e o agronegócio em geral, movimentos
sociais e entidades de defesa dos direitos humanos entraram em alerta.
Isso porque a monocultura da cana substitui a produção de
alimentos em diversas regiões (o que ameaça nossa soberania alimentar),
prejudica o meio ambiente, provoca doenças respiratórias por conta das
queimadas e superexplora os cortadores de cana. Para falar sobre esse
assunto, a Radioagência NP entrevistou Maria Aparecida de Moraes
Silva, professora de Sociologia da Universidade Estadual Paulista
(Unesp). Ouça agora.
Radioagência NP: Professora, como começou o cultivo da monocultura
da cana-de-açúcar no país?
Maria Aparecida de Moraes Silva: Historicamente as usinas de
cana-de-açúcar em São Paulo surgiram na primeira metade do século 20.
Algumas delas eram importantes até o período da década de 50, mas de
toda a forma eram usinas que produziam, sobretudo, o açúcar. A partir
dos anos 60, houve a instalação de grandes usinas não somente para a
produção de açúcar, mas também de álcool. Essa produção foi incentivada
e na década de 80 ela se estabilizou. Mas na década de 90 houve
novamente um avanço da cultura canavieira no estado de São Paulo e este
avanço é mais notório no ano de 2000. Hoje acontece um verdadeiro
“boom” da cana de açúcar. O estado de São Paulo se transformou
praticamente num imenso canavial e, com esta crise energética atual
mundial, a discussão passa a ser se o etanol é uma alternativa para o
fim da produção petrolífera mundial.
Radioagência NP: E qual a relação da monocultura da cana com a
produção do etanol como biocombustível?
MAMS: Se você verificar a historia do país, sempre respondemos
às necessidades externas e não às nossas necessidades internas.
Produzimos sempre o que os países de fora estão precisando. Primeiro
foi cana-de-açúcar, depois o ouro, o café, a borracha. Neste momento
estamos vivendo esta situação. De acordo com o avanço cientifico
mundial, não sabemos exatamente se o etanol será a grande alternativa
energética do mundo. Mas, neste momento, essa produção do etanol é uma
resposta a esta produção externa e acredito que isto tenha a ver com a
geopolítica desenvolvida pelos Estados Unidos. Produzindo o etanol para
o mercado interno dos Estados Unidos, o Brasil se alia muito mais à
política deles. Então não seriam apenas aspectos econômicos que
poderiam explicar este avanço desta monocultura, mas talvez aspectos
políticos desta geopolítica mundial.
Radioagência NP: E quais os problemas ambientais tanto da
monocultura como da produção do etanol?
MAMS: Fala-se que o etanol seria a energia limpa, muito menos
poluente que a gasolina. Mas na medida em que defendemos esta tese,
esquecemos os métodos utilizados para esta produção. A cana precisa ser
feita em grandes áreas justamente para atender a modernização deste
grande processo produtivo. Os seus prejuízos já estão comprovados,
porque é uma cultura que depende de muitos agrotóxicos. Além disto, o
método das queimadas, nesta região de Ribeirão Preto, onde eu vivo,
posso te dizer que durante oito meses do ano, nós respiramos fumaça.
Então eu pergunto que energia limpa é esta? Isso sem contar que todos
os caminhões, tratores e máquinas envolvidos nesta produção são movidos
a óleo diesel e não a álcool.
Radioagência NP: Por que existe tanta incidência do trabalho escravo
na monocultura?
MAMS: Primeiramente, é melhor a gente pensar bem que tipo de
trabalho é esse. À primeira vista, não é trabalho escravo porque esses
trabalhadores recebem um salário. Quem são esses trabalhadores aqui em
São Paulo? Na sua maioria não são paulistas. Eles são nordestinos. São
do Maranhão, Piauí, Paraíba, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Rio
Grande do Norte e norte de Minas Gerais. No ano passado, só no estado
de São Paulo, a previsão da Pastoral do Migrante foi de que aqui
estiveram 200 mil trabalhadores migrantes. Na década de 80, por
exemplo, o trabalhador era obrigado a cortar, em média, de cinco a oito
toneladas de cana por dia. No ano passado, eles já estavam sendo
obrigados a cortar de 12 a 15 toneladas de cana por dia. Não se aceita
o trabalhador que corte menos do que dez toneladas por dia. Houve, com
o passar do tempo, uma imposição muito grande dos níveis de
produtividade e, conseqüentemente, é um trabalho que demanda muita
energia e resulta em um desgaste muito grande da força de trabalho.
Vocês acabaram de ouvir a entrevista com Maria Aparecida de Moraes,
professora de Sociologia da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).
De Brasília, da Radioagência NP, Gisele Barbieri
19/03/07
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